- Branquinho, "Objeto e Método da Metafísica"
- Conee, "O que é a Metafísica?"
- Loux, "Introdução à Metafísica"
- Lowe, "A Natureza da Metafísica"
- Loux & Zimmermann, "A Metafísica Contemporânea"
terça-feira, 31 de março de 2009
Algumas leituras sobre a natureza da metafísica
quarta-feira, 4 de março de 2009
Livros básicos, introdutórios ou panorâmicos de filosofia
Ordenados (mais ou menos) dos mais simples e básicos aos mais completos e sofisticados:
- Stephen Law, Os Arquivos Filosóficos
- Julian Baggini, O Porco Filósofo (pré-visualização)
- Stephen Law, Guia Ilustrado Zahar de Filosofia
- Nigel Warburton, O Básico da Filosofia
- Bryan Magee, História da Filosofia
- Thomas Nagel, Uma Breve Introdução à Filosofia
- Peter F. Strawson, Análise e Metafísica
- Kwame A. Appiah, Introdução à Filosofia Contemporânea
- Nicholas Bunnin e E.P. Tsui-James (eds.), Compêndio de Filosofia
- Alec Fisher, A Lógica dos Verdadeiros Argumentos
- Julian Baggini, As Ferramentas dos Filósofos
- Douglas Walton, Lógica Informal
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terça-feira, 3 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Lógica e argumentação: análise de um editorial de Zero Hora
Eis outro exemplo de aplicação do método de extração e avaliação de argumentos de Alec Fisher, usando textos de jornais. Agora veremos um editorial da Zero Hora de hoje (2009-03-02). Eis, novamente, as convenções das marcações que utilizo:
- Cada parágrafo do texto recebe uma letra que o identifica, para simplificar a referência posterior: (a), (b), (c), etc.
- Palavras e expressões que indicam raciocínio ou inferência são colocados em maiúsculas: NO ENTANTO, PORÉM, POR ISSO, PORQUE etc.
- Razões são precedidas de um número de identificação (1, 2, 3 etc.) e colocadas entre chaves ({, }).
- Conclusões (as quais também são razões numeradas) são sublinhadas.
- Comentários aparecem entre os marcadores "\" e "/".
- O símbolo "→" indica as premissas à esquerda e a conclusão à direita, e o símbolo "↓" indica as premissas acima e a conclusão abaixo.
Vamos à extração e avaliação da argumentação do editorial.
Frente anticorrupção
No texto, 9 é imediatamente por 7 e 8, como indicam o marcador de raciocínio POR ISSO:
Ou (7 ou 8)→9. Assim, o texto está dizendo que (9) é melhor buscar a impessoalidade dos concursos e dos funcionários de carreira, pois (7) nomeações de ordem política deformam o setor, ou (8) são brechas para a corrupção. Mas o argumento pode ser montado de maneira mais articulada, pois 7 ou 8 são fundamentos para 5, o qual é uma ocorrência do fenômeno mais geral apresentado em 7 ou 8:
Ou seja, o editorial está dizendo que (9) é preciso buscar a impessoalidade no governo como um todo, porque (6) fundos de pensão movimentam quantidades fabulosas de dinheiro, seguem interesses obscuros e não há transparência. Isso seria demonstrado por (5) certa polêmica em debate. A polêmica colocaria a público uma ocorrência de um fenômeno mais geral, nomeações políticas em empresas públicas ou mistas que (7) ou levam à "acomodação" de interesses políticos, ou (8) à corrupção.
Há problemas lógicos no editorial. A conclusão, pedindo impessoalidade, estaria em boa ordem lógica caso se limitasse a instituições como o Real Grandeza, mas está mal argumentada como proposta para o governo como um todo.
À primeira vista, poderia se questionar, também, a adequação de se apoiar uma proposta em meros rumores. Mas esse seria um pedido indevido, pois é razoável o que o editorial pede, transparência de instituições públicas.
Mais um problema: é difícil ver a relação entre 10 e o argumento do editorial:
Ainda quanto aos problemas, as relações entre as premissas 1, 2, 3 e 4, as quais fazem parte de argumentos laterais, não são boas. 1 não segue de 2:
Frente anticorrupção
(a) Estimulados pela repercussão de entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), na qual denunciou o histórico apetite de cargos por parte de integrantes de seu partido, parlamentares pretendem deflagrar nesta semana, no Congresso, uma espécie de frente anticorrupção. A iniciativa, em torno da qual deputados federais como Fernando Gabeira (PV-RJ) e Gustavo Fruet (PSDB-PR) esperam reunir cerca de três dezenas de parlamentares, pretende concentrar a atenção nas nomeações de cunho político para o setor público, particularmente para empresas estatais. 1 {Num país com deformações culturais como o Brasil}, PORÉM, 2 {essa é uma questão que será resolvida apenas quando o debate deixar de vir à tona apenas às vésperas de campanha eleitoral, como ocorre hoje, mas persistir até ser encontrada uma solução adequada}. \O argumento é de difícil análise, pois a premissa e a conclusão são complexas, mas 2 não segue de 1, pois é possível, mesmo no Brasil, país que é descrito como tendo "deformações culturais", que a questão seja resolvida ainda que o debate não venha à tona apenas "às vésperas de campanha eleitoral". Não há argumentos para a impossibilidade pressuposta, e nada há de óbvio na mesma./A principal conclusão do editorial parece ser:
(b) 3 {A polêmica sobre as nomeações de caráter político ganhou fôlego} PELO FATO DE 4 {as disputas terem transcendido, na última semana, o âmbito do poder público e voltado mais uma vez ao âmbito dos fundos de pensão de estatais}. \Talvez o "pelo fato de" seja explicativo, ao invés de inferencial. Caso seja explicativo, deixamos de lado na análise. Caso seja inferencial, 4 é apresentado como razão para 3, ou 4→3. É uma questão de fato se 4 fundamenta 3. Isto é, é uma questão de fato se é 4, ou alguma oitra coisa, o que dá fôlego à polêmica, assim como é uma questão de fato se a polêmica ganhou fôlego ou não./ DIANTE DE 5 {supostas manobras que estariam ocorrendo no poderoso fundo de pensão de Furnas, o Real Grandeza, que movimenta R$ 6,3 bilhões, o ministro das Minas e Energia}, Edison Lobão (PMDB-MA), denunciou o que considera uma “bandidagem completa” de quem quer fazer “uma grande safadeza”. Pressionado, o governo atenuou as críticas, mas FICOU EVIDENTE 6 {o quanto esses mecanismos poderosos, que giram elevados montantes de dinheiro público, são influenciados por razões obscuras e agem sem qualquer preocupação com transparência} \a tentativa é de fundamentar 6 em 5, 5→6. No entanto, o raciocínio é difícil de acompanhar, por causa da ambiguidade da expressão "supostas manobras". Se a expressão indica que há indícios de manobras, mas não dá para saber, pois o Real Grandeza não é transparente, então disso se conclui um fragmento de 6, o qual seria algo como "não há transparência no Real Grandeza. Mas isso não seria grande coisa do ponto de vista lógico, pois isso já estava na premissa 5. No entanto, não há em 5 o suficiente para concluir 6. Isso não quer dizer que não se poderia derivar 6 de outras premissas. Isso quer dizer, apenas, que há um problema lógico neste raciocínio, pois 6 não segue de 5./
(c) 7 {Nomeações de ordem política significam uma deformação no setor público, que é frequentemente partilhado para acomodar interesses políticos, muitas vezes com indicações de pessoas sem o perfil exigido para o cargo} \Trata-se de uma premissa básica deste texto, pois não é apresentada razão que a fundamente. Aparentemente, 7 fundamenta 5. É de se notar que a expressão "setor público" não designa apenas empresas como Furnas, e por isso o argumento se torna vago./. 8 {Não raramente, essa é uma brecha para chagas ainda mais sérias na área governamental, como a corrupção}. \Esta premissa fundamenta 5./ POR ISSO, na hipótese de vingar a ideia da frente proposta agora, que não pretende se identificar como de oposição, 9 {é importante que seja dada ênfase à necessidade de maior impessoalidade no governo. O caminho para assegurar esse avanço é a ênfase à realização de concurso público e à indicação de funcionários de carreira para ocupar cargos de comando}. \A estrutura do argumento é (7 ou 8→9, ou: de 7 ou de 8 segue 9. À primeira vista, o raciocínio está em ordem, pois: se é o caso que se trata de cargos técnicos, ao invés de cargos políticos, então o melhor é uma via de preenchimento impessoal, como os concursos. O único porém seria saber se os cargos em questão são técnigos ou políticos. O texto pressupõe, sem argumentar, que são cargos técnicos. Se isso for o caso, então o argumento está ok. Problema: em 9 se passa ilegitimamente de algo específico, fundos de pensão como o de Furnas, para algo genérico, "o governo". Outro problema: 9 diz que é preciso mais impessoalidade no governo como um todo, mas faltam fundamentos para isso no editorial, pois o mesmo tratava de algo específico, menor do que o governo como um todo./
(d) 10 {Qualquer esforço parlamentar por mais ética no setor público, como o anunciado agora, precisa ser associado a ações mais amplas, que possam levar a avanços, por exemplo, na reforma política. O fortalecimento dos partidos, exigindo maior comprometimento com os estatutos das legendas, é um pressuposto para assegurar maior comprometimento de candidatos a cargos públicos com questões de interesse do conjunto da sociedade. Uma ampla reforma seria vital para conter males como o empreguismo e abrir caminho para outras mudanças importantes, como as aguardadas na área previdenciária e tributária.} \Aqui o texto muda de assunto, por contiguidade./
9 {é importante que seja dada ênfase à necessidade de maior impessoalidade no governo. O caminho para assegurar esse avanço é a ênfase à realização de concurso público e à indicação de funcionários de carreira para ocupar cargos de comando}Ante tal conclusão, um guia para a extração e avaliação do argumento é fazer a Pergunta de Asseribilidade (estou introduzindo-a agora):
Que razões ou indícios me levariam a afirmar tal conclusão?Essa pergunta serve como guia para a extração e avaliação dos argumentos. Assim, precisamos buscar, no texto em tela, o que nos levaria a dizer que é preciso mais impessoalidade no governo, com a realização de concursos e a indicação de funcionários de carreira.
No texto, 9 é imediatamente por 7 e 8, como indicam o marcador de raciocínio POR ISSO:
7 {Nomeações de ordem política significam uma deformação no setor público, que é frequentemente partilhado para acomodar interesses políticos, muitas vezes com indicações de pessoas sem o perfil exigido para o cargo}Assim, a estrutura do argumento parece ser:
8 {Não raramente, essa é uma brecha para chagas ainda mais sérias na área governamental, como a corrupção}
(7 ou 8)
↓
9
↓
9
Ou (7 ou 8)→9. Assim, o texto está dizendo que (9) é melhor buscar a impessoalidade dos concursos e dos funcionários de carreira, pois (7) nomeações de ordem política deformam o setor, ou (8) são brechas para a corrupção. Mas o argumento pode ser montado de maneira mais articulada, pois 7 ou 8 são fundamentos para 5, o qual é uma ocorrência do fenômeno mais geral apresentado em 7 ou 8:
5 {supostas manobras que estariam ocorrendo no poderoso fundo de pensão de Furnas, o Real Grandeza, que movimenta R$ 6,3 bilhões, o ministro das Minas e Energia}Assim, o argumento está dizendo (7 ou 8)→5...→9, e agora vamos preencher as reticências do argumento. 5 é fundamento de 6:
6 {o quanto esses mecanismos poderosos, que giram elevados montantes de dinheiro público, são influenciados por razões obscuras e agem sem qualquer preocupação com transparência}No entanto, como indiquei no comentário a 6, 5→6 é um raciocínio ruim, seja por causa da obscuridade do que é dito, seja porque, no máximo, 6 é uma petição de princípio, visto que só reafirma o que já está em 5. A estrutura do argumento com um todo seria:
(7 ou 8)
5
↓
6
↓
9
5
↓
6
↓
9
Ou seja, o editorial está dizendo que (9) é preciso buscar a impessoalidade no governo como um todo, porque (6) fundos de pensão movimentam quantidades fabulosas de dinheiro, seguem interesses obscuros e não há transparência. Isso seria demonstrado por (5) certa polêmica em debate. A polêmica colocaria a público uma ocorrência de um fenômeno mais geral, nomeações políticas em empresas públicas ou mistas que (7) ou levam à "acomodação" de interesses políticos, ou (8) à corrupção.
Há problemas lógicos no editorial. A conclusão, pedindo impessoalidade, estaria em boa ordem lógica caso se limitasse a instituições como o Real Grandeza, mas está mal argumentada como proposta para o governo como um todo.
À primeira vista, poderia se questionar, também, a adequação de se apoiar uma proposta em meros rumores. Mas esse seria um pedido indevido, pois é razoável o que o editorial pede, transparência de instituições públicas.
Mais um problema: é difícil ver a relação entre 10 e o argumento do editorial:
10 {Qualquer esforço parlamentar por mais ética no setor público, como o anunciado agora, precisa ser associado a ações mais amplas, que possam levar a avanços, por exemplo, na reforma política. O fortalecimento dos partidos, exigindo maior comprometimento com os estatutos das legendas, é um pressuposto para assegurar maior comprometimento de candidatos a cargos públicos com questões de interesse do conjunto da sociedade. Uma ampla reforma seria vital para conter males como o empreguismo e abrir caminho para outras mudanças importantes, como as aguardadas na área previdenciária e tributária.}Aqui parece haver, novamente, a confusão já presente em 9. Ali, o que era uma discussão sobre empresas públicas ou mistas vira uma discussão sobre o governo em geral. Aqui, a discussão sobre tais empresas, as quais têm membros de partidos indicados politicamente, vira uma discussão sobre reforma política! Não dá para entender como se chega a isso, a não ser por contiguidade: de membros de partidos se chega aos partidos. Mas, aqui e usualmente, a relação de contiguidade não é um bom guia para o raciocínio.
Ainda quanto aos problemas, as relações entre as premissas 1, 2, 3 e 4, as quais fazem parte de argumentos laterais, não são boas. 1 não segue de 2:
1 {Num país com deformações culturais como o Brasil}Não há necessidade alguma que 2 siga de 1. Essa é, no máximo, uma possibilidade entre tantas outras. E depende de investigar os fatos dizer alguma coisa da relação entre 3 e 4:
2 {essa é uma questão que será resolvida apenas quando o debate deixar de vir à tona apenas às vésperas de campanha eleitoral, como ocorre hoje, mas persistir até ser encontrada uma solução adequada}
3 {A polêmica sobre as nomeações de caráter político ganhou fôlego}Por fim, algo que não é necessariamente um problema: pode ser que a polêmica tenha ganho fôlego por outros motivos. Mas essa é uma questão sobre os fatos, não sobre o argumento.
4 {as disputas terem transcendido, na última semana, o âmbito do poder público e voltado mais uma vez ao âmbito dos fundos de pensão de estatais}
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